COMO SURGIU E SE DESENVOLVEU O ROTEIRO
Transcrição de Carlos Sussekind; edição final de Carlos Calil
Publicado no livro O Imponderável Bento Contra o Crioulo Voador, ed. Marco Zero


Transcrição do encontro, ocorrido em 25 de outubro de 1988, entre amigos e colaboradores de Joaquim Pedro de Andrade, e sua mulher Ana Maria Galano, em que se procurou evocar o processo de criação de O Imponderável Bento Contra o Crioulo Voador. Desse encontro participaram:

Fernando Coni Campos (1933-1988), poeta, contista, roteirista e diretor de cinema. Publicou O Nome (1963), poema-fábula com ilustrações de Newton Cavalcanti. Dirigiu os longas-metragens Morte em Três Tempos (1963), Viagem ao Fim do Mundo (1968), premiado no Festival de Locarno, Ladrões de Cinema (1977) e O Mágico e o Delegado (1983), além de outros longas e curtas.

Eloá Jacobina, graduada em Ciências Sociais, colaborou no roteiro e na produção de O Mágico e o Delegado, co-roteirista de Fiel do Amor, projeto interrompido pela morte de seu marido, Fernando Coni Campos.

Mário Carneiro (1930), gravurista, pintor, fotógrafo e diretor de cinema. Fotografou e co-dirigiu Arraial do Cabo (1960), que recebeu vários prêmios internacionais. Fotografou Porto das Caixas, Capitu, Garrincha, Alegria do Povo, O Padre e a Moça, Todas as mulheres do Mundo, Sagarana, O Duelo, A Casa Assassinada, Di Cavalcanti, O Mágico e o Delegado e outros. Dirigiu vários curtas-metragens dentre os quais destaca-se Landi, Arquiteto Régio do Grão Pará e o longa-metragem Gordos e Magros.

Ana Maria Galano, graduada em letras Anglo-Germânicas. Doutorou-se em Sociologia na França, enquanto esteve exilada naquele país. Atualmente ensina Sociologia na UFRJ.

Carlos Sussekind de Mendonça, tradutor, escritor, desenhista. Publicou Os Ombros Altos (novela) e Armadilha Para Lamartine (romance).

Fernando – A primeira vez que Joaquim me falou desse projeto, disse que queria aproveitar os restos do O Homem do Pau Brasil. E falou de um livro de Blaise Cendrars, que ele achava muito divertido, O Loteamento do Céu. Ele ria: fazer um filme com o que sobrou do O Homem do Pau Brasil, “porque com o que sobra, sempre dá pra fazer uma boa sopa”. Havia um outro foco de interesse, a Tais do Anatole France, e como misturar essas duas coisas: Taís e Blaise Cendrars. Ele me contou que o filho de Cendrars era oficial da aviação francesa e, num jantar, o pai lhe falou sobre São José de Cupertino. Eu já conhecia este santo. Poucas vezes nasceu alguém tão burro quanto São José de Cupertino, coisa que divertia muito Joaquim: a idéia de um santo absolutamente tapado. Levou vinte anos para passar do 1º para o 2º ano, no Seminário; não conseguiu ser aprovado até que resolveram jubilá-lo e ele foi feito padre sem terminar o seminário menor. Mas ele era incrível: de repente, onde estava São José de Cupertino? Estava a meio metro do solo. Levitando. Numa dessas levitações, ia quase batendo com a cara contra o muro, e, percebendo isso, levitou de costas. Joaquim morria de rir com essas levitações em marcha à ré.

Já havia então uma personagem, e ia confrontar-se com a Taís. A Taís que, no Anatole France, encontra-se com um santo no deserto, envolve o santo, etc. Aí Joaquim chamou Mário Carneiro, o Joaquim Assis e a mim, para desenvolver essa idéia da Taís e São José de Cupertino. Era uma coisa muito metódica. Ele marcava reuniões para 10 horas, e às 10 horas a gente ia lá. Joaquim, como um mestre-escola dava tarefas: a gente tinha que apresentar biografias de santos. Eu era o primeiro aluno da classe, porque sempre tive um fascínio incrível por biografia de santo. Principalmente de santo doido. Aqueles santos que são pouco conhecidos. Mário Carneiro até inventou um santo.

Mário – Joaquim achou melhor me encarregar da parte da iconografia dos santos. “Você pinta, então faz um levantamento do que se pinta da vida dos santos”. Eu reuni material sobre Santo Antão, pinturas sobre visões, no deserto, dos santos eremitas, essa coisa toda.

Fernando – Joaquim Assis também deu uns palpites muito engraçados, mas demorou pouco, porque foi contratado pela Casa de Criação da Globo, e com isso ficamos praticamente só nós dois, Mário e eu. Daí a alguns dias, Joaquim telefona para a gente ter uma entrevista com Dom Estevão Bittencourt sobre o Diabo. Eu, Mário e Joaquim já conhecíamos Dom Estevão. Vocês conhecem Dom Estevão?

Carlos – Conheço como uma das figuras que aparecem no filme de Mário sobre o Mosteiro de São Bento (I)

Mário – Nós resolvemos fazer um filme sobre o Mosteiro de São Bento por causa dos equipamentos que vieram da Europa para o Serviço do Patrimônio Histórico, através de um entendimento com a UNESCO. Uma vez chegada a moviola, tinha que ser aproveitada num filme ligado a alguma obra que fosse do interesse do Patrimônio. Em comum acordo, chegou-se à conclusão de que no Rio de Janeiro a mais valiosa era o Mosteiro de São Bento. Mas Joaquim estava mais interessado em espionar os monges e a vida monacal, do que fazer um filme sobre arquitetura religiosa. Este nasceu do empenho de Doutor Rodrigo,(II) que sempre foi uma pessoa muito respeitosa em relação às regras dos outros. Entramos no Mosteiro de São Bento ainda com dúvidas sobre como abordá-lo. Joaquim queria penetrar no claustro para ver como funcionava a vida dos monges, no que foi bloqueado, em primeiro lugar por Dom Marcos Barbosa, que imediatamente farejou comunismo naquilo: “São comunistas e estão aqui xeretando a gente, isso vai dar coisa muito séria”. E começou a invocar umas regras monacais. Você podia ser hóspede do Mosteiro, mas não podia ultrapassar tais e tais limites geográficos, o que dava um nível de conhecimento muito rasteiro para o que Joaquim queria. Ele estava pretendendo uma coisa dramática, que os beneditinos não queriam demonstrar de jeito nenhum. Deixavam que a gente freqüentasse o canto, as missas, o lado bonito da vida deles. E só. Nem mesmo aquele lado do confessionário, que é meio aberto, do qual você ouve um pouco o papo, uma espécie de parlatório que eles têm, nos foi permitido abordar. Então, foi-se fechando o caminho e me veio a cabeça fazer um filme sobre a obra de talha, que se chamava O Humanismo Paraíso. Essa idéia seduziu Joaquim porque era um modo de driblar uma espécie de autocensura que havia com relação aos hábitos dos monges. Tinha lá Dom Leão, que era fotógrafo e adorava bater fotografias junto comigo. Botava luzes nos lugares mais estranhos, surgiam imagens incríveis e ele de repente gritava “Apareceu Ava Gardner, Mário, olha lá!”, entusiasmando-se com aquela carnalidade toda. Ficou então no ar a idéia de se evocar o que se passa dentro do Mosteiro no que era visto por fora, na obra talhada. Depois encomendei a Alexandre Eulálio (III) um levantamento de textos de santos histéricos, se se pode chamar assim, santa Teresa D’Ávila, São João da Cruz, aqueles textos em que se carnaliza muito a imagem de Cristo, em que a paixão é muito viva. Alexandre preparou o texto da narração, a gente se deliciava com ele, mas aí Doutor Rodrigo severamente cortou esse texto e o filme ficou apenas musicado e com uma introdução do Doutor Lúcio Costa (IV) dizendo que se tratava de uma visita. Talvez de tudo isso tenha ficado, inconscientemente, em Joaquim, alguma coisa...

Fernando – Ah! Que ficou, ficou. Acho a menção desse filme muito importante, por que no Bento isso tudo vai reaparecer. Vai reaparecer Santa Teresa D’Ávila, Vai reaparecer São João da Cruz. Naquele diálogo em que Taís e Bento estão levitando, tudo isso ressurge. Por isso acho muito importante a associação que você fez. Mas voltando às nossas reuniões: Joaquim estava interessadíssimo na tal conversa, que mencionei, entre Blaise Cendrars e o filho, que trouxe à baila a figura de São José de Cupertino e em que Cendrars propôs ao filho sugerir às autoridades que fizessem do santo o padroeiro da aviação francesa. E a surpresa de saber que ele já o era.

Ana Maria – Ele era padroeiro, mas não da aviação francesa. Era padroeiro da aviação norte-americana.

Fernando – Exatamente, padroeiro da N.A.S.A., inclusive.

Mário – Não pôde ser da francesa porque já era da norte-americana.

Fernando – Joaquim se divertia intensamente com essas histórias, que ele contava de maneira engraçadíssima. Ficou então estabelecido que tinha que ter aeronáutica no roteiro. Mas tinha que ter também a Taís. E a aeronáutica foi levando ao filho de Zuzu Angel, ao Stuart Angel, que começou a ganhar dimensões de personagem. E, por outro lado, a Taís começou a ganhar o contorno de uma cronista social de Brasília. Essas duas coisas se firmaram – a cronista e Stuart Angel. Joaquim telefonou para a jornalista Maria do Rosário Caetano e pediu um depoimento sobre o jornalismo de Brasília. E a Rosário fez um levantamento, contou várias histórias, inclusive a de um jornal que resolveu inventar a personagem Crioulo Voador. Joaquim, então, escreveu o primeiro tratamento do roteiro que ainda não se chamava Bento; não tinha título ainda. Então me lembrei do Bento Mello. Um personagem que realmente existe. Foi colega da Eloá na filosofia (V).

Eloá – O Bento fazia astronomia. Mas já era oficial reformado da Aeronáutica.

Fernando – Foi um oficial brilhante. O irmão dele era brigadeiro, parente do próprio Mello Maluco. Pois um dia o Bento pega um Phantom – um dos primeiros que chagaram na Base Aérea de Anápolis – e sai nesse avião que custava milhões de dólares. Ele deu vôos razantes em Brasília e, depois subiu, subiu, subiu, e, a mil metros do solo, ejetou a poltrona com pára-quedas e tudo, e o Phantom espatifou-se no solo. Imagine o prejuízo para a aeronáutica.

Eloá – Ele só não foi expulso porque o irmão conseguiu que fosse dado como doente mental.

Fernando - Astrônomo e músico! As duas únicas coisas que o Bento entende são astronomia e música erudita. Joaquim ficou fascinado com a idéia do Bento e começou a imaginar: o pára-quedas cai em pleno Planalto Central, no cerrado, e o Bento, com aquela roupagem de piloto de provas, o macacão laranja cheio de mil coisas, o capacete, as luvas. Livra-se desse equipamento todo e começa a andar no cerrado. Ele está perdido e encontra umas pessoas que acham que ele é muito estranho. Joaquim queria tudo ao mesmo tempo e já havia encomendado a Mário, uma iconografia sobre os santos, sobre os anacoretas, sobre a Tebaiada (VI) . E dizia com aquele seu risinho: “Tebaiada parece tebaísmo” (VII) . Depois disso, ficamos algum tempo sem nos ver. Eu viajei. E um dia ele me telefona dizendo: “Olha, o roteiro está pronto. O primeiro tratamento, pelo menos”. Eu fiquei espantado, ao ver como Joaquim tinha misturado tudo isso de maneira tão harmônica. E me disse: “O título é O Imponderável Bento”. Quando li o roteiro, pude constatar como era fantástico.

Carlos – Esse primeiro tratamento difere muito do definitivo?

Fernando – Ah! Bastante! Porque depois Joaquim começou a inventar os diabinhos, as coisas do deserto, o Pensatório – que foi uma idéia fantástica – e ele bolava coisas incríveis: as dietas dos santos, os castigos... Mas o ponto de partida foi realmente o que sobrou do O Homem do Pau Brasil.

Ana Maria – Quando você diz “o que sobrou do O Homem do Pau Brasil”, a que está se referindo exatamente?

Fernando – Ao episódio de Blaise Cendrars, muita coisa que ele filmou e que não está no filme.

Ana Maria – Tem uma levitação no O Homem do Pau Brasil. Joaquim dizia que essa primeira levitação tinha dado a ele uma idéia de possibilidade cênica.

Mário – Fernando, quando traçou o desenrolar dos fatos, acho que inverteu: a idéia do Bento veio na primeira sinopse; depois é que veio o Crioulo Voador, quando se buscaram subsídios para outra personagem, a da jornalista.

Eloá – Exatamente. Tanto assim que a Maria do Rosário entrou depois.

Mário – Esse Bento foi um feliz acaso. O conhecido de Fernando veio ao encontro de uma idéia implícita no roteiro de Joaquim. Porque eu me lembro que, quando Joaquim Assis ainda trabalhava conosco, já tínhamos jogado abaixo o avião do Imponderável Bento. Isso corresponde a uma primeira etapa da história, antes de ser roteirizada...

Fernando – Não, tinha vindo abaixo um daqueles santos que voavam e...

Mário – Você já tinha dado a idéia do Bento. Foi logo, foi muito rápido. O nome ficou... O “imponderável” é que foi o achado. A expressão “imponderável Bento” surgiu logo, logo, e o ter apanhado isso de saída foi absolutamente joaquiniano. Me lembro até da noite em que ficou pensando, debaixo da escada, e de repente: “Que tal O Imponderável Bento?”

Eloá – O próprio “Bento” também é um achado...

Mário – É outro, pois é o nome de um grande santo. Houve, então, esses achados fantásticos. A aura de Joaquim são essas junções de vários esforços de amigos que, de repente, ele introduzia uma centelha, de onde surgia o nome já pronto.

Carlos – Tomei conhecimento desse roteiro por uma sinopse.

Ana Maria – Essa sinopse data de...

Eloá – Julho de 1984.

Fernando – Joaquim era muito metódico. Em tudo que ele escrevia, ele punha data.

Ana Maria – a primeira vez que Joaquim me falou desse projeto foi em agosto de 1983. Voltando de uma fazenda no interior de São Paulo, tinha ido a uma vendinha tomar cachaça e veio uma coisa fortíssima na cabeça dele: era um tropel com todos aqueles escândalos financeiros, tudo que estava se passando em Brasília naquela época. Veio ele com uma clareza, com uma nitidez, que ele teve que pedir papel para escrever rapidamente. E quando recebeu o guardanapo e um lápis, sumiu. Depois ele contou do que é que se tratava. Era uma espécie de motivo recorrente – a patifaria dos modos e costumes de Brasília – e acho que está presente no Bento.

Mário – Esse filme, O Imponderável, é uma crítica útil, violentíssima, ao período militar, que teria sido um pouco amenizada de uma versão para outra, para viabilizar o projeto; mas na verdade, não foi propriamente amenizada: a morte de Stuart Angel continua igual...

Ana Maria – Não é só isso. É que existem duas versões. Uma que passou a se chamar “versão rosa”, com capa rosa e tudo, que foi mesmo censurada; outra que é a versão definitiva e não teve nenhuma censura.

Fernando – Joaquim ouvia as várias sugestões e, no dia seguinte, quando a gente ia ler o que ele tinha redigido, tudo aquilo tinha sido aproveitado, mas com uma visão absolutamente pessoal.

Mário – Isso foi sempre o dom joaquiniano. Paulo César (Saraceni) chamava isso de “a cambalhota de Joaquim”. Uma noite, estávamos reunidos em minha casa, Luiz Carlos Barreto brigando, fulano dizendo absurdos sobre o cinema brasileiro, e Joaquim, para chegar à extrema razão dessa grande contradição do Cinema Novo, começou a dizer uma frase e foi-se entusiasmando e daí a pouco deu uma cambalhota sobre si mesmo. Todos aplaudiram. O que não impediu que saísse uma porrada: Barreto acabou se atracando com Paulo César, Joaquim entrou no meio, enquanto isso, estava-se fazendo um macarrão na cozinha, e voaram pedaços de carne. No Cinema Novo de vez enquando baixava o pau. Era extraordinária essa capacidade, que tinha Joaquim, de junção, de ao mesmo tempo harmonizar e vir com uma solução única – esse insigth joaquiniano é uma qualidade raríssima.

Ana Maria - O início de tudo foi em São Paulo, na fazenda onde ele começou a refletir sobre essas coisas. Mas ao mesmo tempo, Joaquim estava escrevendo o roteiro do Vida Mansa. Então, na verdade, ele conduziu dois roteiros ao mesmo tempo. Até terminar Vida Mansa, o que deve ter ocorrido em junho de 1984, o Bento não tinha sinopse. Aí, passou a ter uma sinopse. E depois ele se reuniu com vocês no verão – janeiro, fevereiro de 85.

Fernando – Isso mesmo.

Ana Maria – Agora, o roteiro do Bento ficou pronto lá em Petrópolis, em fevereiro de 86. O Joaquim sentava na varanda...

Mário - ... ficava batendo à máquina...

Ana Maria – Na verdade, não terminou ali, porque Joaquim reescreveu a última seqüência na semana antes de entrar no hospital, dia 2 de dezembro de 88.

Mário – Quer dizer que ele estava trabalhando no roteiro...

Ana Maria – Ele começou a pensar de novo naquele final. Não estava satisfeito com o pique na Praça dos Três Poderes, com a Defesa Antiaérea abatendo o avião. Ele mudou esse final... No início da Nova República, Joaquim teve uma participação muito grande naquelas tentativas de alterar as normas de funcionamento da produção de cinema, das relações do Estado com o cinema, e essa esperança levou ele, de alguma forma, a achar que não era o momento de fazer o Bento .

Mário - Eu sei. E sei também que foi um erro. Não atribuo a ninguém a culpa... Para mim, a opção de Joaquim não foi a melhor possível. Ele tinha diante de si dois projetos. O primeiro, Bento, era uma hiperatualização dos anos 64 pra cá, numa vertente surrealista, cristã, uma coisa muito estranha, que resultava numa sacanagem de nível celestial, que ultrapassa essa burrice... terrena. Porque Joaquim se pautava – era a maneira de ser dele mesmo – por uma espécie de anarquia, por um reloteamento violento lá do céu. Queria fazer confluir os opostos, harmonizá-los... O segundo projeto investigava as origens do Brasil, através de Casa-Grande & Senzala, uma volta supermoderna, evidentemente, que acabou revelando uma inviabilidade muito grande. Um filme em que ele podia se expandir, mas se expandir mal, justamente na época em que Joaquim se achava em processo de concentração. Bem, se Joaquim tivesse vivido, poderia ter feito os dois, o que seria ótimo.

Fernando – Como foi que se fez o projeto O Defunto?

Mário – Seria uma sinopse retirada dos livros do Nava...

Fernando – Então Joaquim acreditava que iria viver pelo menos seis meses. Ou não?

Ana Maria – Como saber, Fernando?

Fernando – Engraçado, eu pensei que fosse um projeto de uma lucidez absoluta, naveana, fundado numa relação com a morte – o Nava e o Joaquim tinham uma afinidade muito grande. Com essa lucidez, ele resolveu apresentar o projeto para ter com que pagar o tratamento de saúde.

Ana Maria – Pagar o tratamento significa que você quer viver.

Fernando – Escolher O Defunto...!

Carlos – Bem, acho que aí ele estava fazendo uma provocação com todos nós, aliás, típica de Joaquim. Nós que o estávamos cercando, envolvendo-o numa série de esperanças. Um sarcasmo muito dele, não era? O Defunto acho que tem, sim, essa conotação pra cortar raspo nas esperanças, mas ao mesmo tempo é como a Ana diz: evidentemente que a idéia de escrever o filme já é uma coisa construtiva, uma posição de luta.

Ana Maria - Joaquim releu boa parte da obra do Nava para chegar ao projeto. Um domingo de manhã, a gente achou no jornal o anúncio da bolsa de artes de Vitae. Aí Joaquim começou a pensar em como se candidatar à bolsa. Chegamos à conclusão de que se partisse de adaptação literária era mais fácil, era um caminho mais conveniente pra quem não ia poder se locomover muito. A coisa já tinha tomado um certo impulso e um dia em que lá estava o Carlos, juntos, insistimos para o trabalho sair.

Carlos - E saiu mesmo. De um bloco, perfeito. Entre paradas pra Joaquim se recuperar do esforço, que era um esforço brutal pra ele. A cabeça articulando tudo, ditando... Aquela articulação impecável do texto, impecável pros fins que tinha em vista... a dosagem perfeita...

Mário – Impressionante. Esse também deveria ser incluído entre os textos de Joaquim para publicação.




NOTAS BIBLIOGRÁFICAS

(I) Curta-metragem, realizado em 1962 por Mário Carneiro, intitulado A Nave de São Bento.
(II) Rodrigo Melo Franco de Andrade (1898 – 1969) foi criador, com Mário de Andrade e Gustavo Capanema, do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), além de escritor bissexto (publicou Velórios, livro de contos). Teve três filhos: Rodrigo Luís, Joaquim Pedro e Clara.
(III) Alexandre Eulálio (1932 – 1988), professor e ensaísta de grande erudição, elaborou vários estudos sobre literatura e artes visuais. Seu trabalho mais notável foi a publicação do “livro de figuras”, A Aventura Brasileira de Blaise Cendrars (1978).
(IV) Lúcio Costa (1902), arquiteto e urbanista, foi diretor da Escola Nacional de Belas Artes. Principal responsável pela concepção do projeto e primeiro diretor da construção do novo edifício do Ministério da Educação, marco da arquitetura brasileira. Como urbanista, sua contribuição mais expressiva é o Plano piloto de Brasília.
(V) Faculdade Nacional de Filosofia, da então Universidade do Brasil (atual Universidade Federal do Rio de Janeiro).
(VI) Tebaiada: região ao sul do Egito, onde se estabeleceram numerosos anacoretas cristãos que tinha como capital Tebas.
(VII) Tebaísmo: o hábito de fumar ópio, a intoxicação pelo ópio, acompanhada das visões que ele proporciona. Assim, chamado por causa de um extrato dito tebaico que se obtinha de uma espécie de ópio egípcio, produzido em Tebas.