JOAQUIM PEDRO FALA DE MACUNAÍMA
Joaquim Pedro de Andrade
Arquivo Filmes do Serro, sem data



Escrevi duas adaptações que me consumiram quatro meses, mais ou menos de fevereiro a junho de 1968. Na primeira eu tentava racionalizar, de certa forma domar o livro. Mas as coisas colidiam. Iam em várias direções e não se completavam. Já na segunda, quando entendi que Macunaíma era a história de um brasileiro que foi comido pelo Brasil, as coisas ficaram mais coerentes e os problemas começaram a ser resolvidos uns atrás dos outros.

Macunaíma era um projeto que me interessava há muito tempo, desde que pensei em fazer cinema e me lembrei do livro de Mário de Andrade, que já tinha lido antes (...) Mas nunca tentei realizá-lo antes, porque havia uma fila de gente pronta a fazê-lo, inclusive amigos meus. Por um motivo ou por outro, foram desistindo. Restou então Cacá Diegues (...) Fui então falar com ele e perguntei se ainda pretendia adaptar o Macunaíma. Cacá respondeu que não e eu parti então para a realização do filme.

Macunaíma é um herói antiqüíssimo, um herói dos índios e cujo nome significa Grande Mal. Os civilizados tomaram conhecimento dele pela primeira vez através dos estudos de um alemão, Koch-Grünberg, que passou uns tempos no Brasil nos fins do século passado, recolhendo lendas indígenas. Ao lê-las, Mário de Andrade, preso de grande comoção lírica e sentindo no Brasil de 1926 o eco de Macunaíma, escreve o livro.

Acho que o personagem, no livro, é mais gentil do que no filme, assim como o filme é mais agressivo, feroz, pessimista, do que o livro amplo, livre, alegre e melancólico de Mário de Andrade. Para ser honesto, considero o filme um comentário do livro.

Usei o essencial da lenda, para torná-la mais ativa para a platéia (...) O canibalismo, por exemplo, é tratado no filme com a maior naturalidade, sem artifício. Isso o torna mais próximo e incômodo.

A impostação que pretendi dar a Macunaíma não se vincula à onda tropicalista, que, para mim, sempre foi completamente furada como movimento.

Eu achava que podia inclusive renovar o público de cinema, atrair aqueles que estavam afastados do cinema há muito tempo, o público da chanchada, por um caminho diferente, sem repetir as velhas fórmulas com variações. O Macunaíma é realmente diferente de tudo quanto foi feito em matéria de cinema, não pelo trabalho, mas em virtude do próprio livro (...) Procurei fazer um filme sem estilo predeterminado. Seu estilo seria não ter estilo. Uma antiarte, no sentido tradicional da arte (...) Não existem nele concessões ao bom gosto. Já me disseram que ele é porco. Acho que é mesmo, assim como a graça popular é freqüentemente porca, inocentemente porca como as porcarias ditas pelas crianças.